SOP e resistência à insulina: qual é a relação?

Se você tem síndrome dos ovários policísticos, provavelmente já ouviu alguma destas frases:

“Você precisa cortar açúcar.”

“Carboidrato é o problema.”

“Você tem resistência à insulina porque está acima do peso.”

“Se emagrecer, a SOP desaparece.”

Existe um pouco de verdade por trás de algumas dessas afirmações, mas nenhuma delas explica adequadamente o que acontece na SOP.

A resistência à insulina é, de fato, uma característica importante da síndrome dos ovários policísticos. Ela pode estar presente mesmo em mulheres que não têm excesso de peso e participa de alterações metabólicas e hormonais relacionadas à SOP.

Isso não significa que toda mulher com SOP tenha resistência à insulina. Também não significa que comer açúcar seja a causa da síndrome.

A relação é muito mais interessante — e mais complexa — do que isso.

Neste artigo, você vai entender o que é resistência à insulina, por que ela é frequente na SOP, como pode interferir nos hormônios, quais exames realmente ajudam a avaliar o metabolismo e o que a alimentação pode fazer nesse contexto.

E talvez a informação mais importante seja esta: você não precisa transformar sua alimentação em uma guerra contra o carboidrato para cuidar da resistência à insulina.

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O que é resistência à insulina?

A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas.

Depois que você come, especialmente alimentos que contêm carboidratos, parte desses nutrientes é transformada em glicose. A glicose passa para o sangue e precisa entrar nas células para ser utilizada como energia.

A insulina ajuda nesse processo.

Ela funciona, de maneira simplificada, como um sinal que facilita a entrada da glicose nas células.

Na resistência à insulina, os tecidos do organismo passam a responder menos adequadamente a esse sinal.

O corpo não simplesmente “para de produzir insulina”.

Na tentativa de manter a glicose do sangue dentro de uma faixa adequada, o pâncreas pode aumentar a produção de insulina. É por isso que, especialmente no início, uma pessoa pode apresentar alterações na ação da insulina sem necessariamente ter glicemia elevada.

Com o passar do tempo, quando a capacidade de compensação não é suficiente, podem aparecer alterações da glicemia e maior risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2.

Na SOP, esse processo tem características próprias e pode ocorrer independentemente do peso corporal. A resistência à insulina é considerada um componente fisiopatológico importante da síndrome, embora sua intensidade varie bastante entre as mulheres.

Por que a resistência à insulina é tão comum na SOP?

A SOP não é uma doença exclusivamente dos ovários.

Ela é uma síndrome complexa que envolve aspectos reprodutivos, hormonais e metabólicos. A resistência à insulina participa dessa interação em muitas mulheres com SOP, juntamente com alterações na produção e na ação dos andrógenos.

Uma das particularidades da SOP é que a resistência à insulina pode ocorrer em diferentes tecidos de maneira não exatamente igual. Alterações na sinalização da insulina podem afetar tecidos como músculo, tecido adiposo e fígado, enquanto algumas vias relacionadas à produção hormonal ovariana permanecem sensíveis à ação da insulina.

Isso ajuda a explicar uma relação importante:

mais insulina circulante pode favorecer alterações na produção de androgênios pelos ovários.

E os andrógenos em excesso podem contribuir para manifestações como acne, aumento de pelos, queda de cabelo e alterações da ovulação.

Não é uma relação linear em que “insulina alta causa todos os sintomas”. A SOP é heterogênea, e diferentes mulheres podem apresentar combinações diferentes de alterações metabólicas e reprodutivas.

Uma revisão publicada em 2025 descreve a SOP justamente como uma condição metabólica e reprodutiva complexa, na qual resistência à insulina e disfunção metabólica têm papel importante ao longo da vida.

Toda mulher com SOP tem resistência à insulina?

Não.

Essa é uma das informações mais importantes para evitar generalizações.

A resistência à insulina é frequente na SOP, mas a síndrome apresenta diferentes fenótipos. Algumas mulheres têm alterações metabólicas importantes. Outras apresentam alterações predominantemente reprodutivas ou relacionadas aos andrógenos.

E existe ainda outra questão: o peso corporal não permite determinar sozinho se existe resistência à insulina.

Uma mulher com IMC dentro da faixa considerada normal pode apresentar alterações metabólicas. Da mesma forma, uma mulher com maior peso pode não apresentar alterações importantes da glicemia naquele momento.

Por isso, não é adequado olhar para o corpo de uma mulher e concluir que ela “tem resistência à insulina”.

A avaliação precisa considerar história clínica, fatores de risco e exames apropriados.

Como a resistência à insulina pode afetar os hormônios?

Aqui está uma das conexões mais importantes entre metabolismo e SOP.

Quando a ação da insulina está prejudicada, o organismo pode compensar produzindo mais insulina.

A hiperinsulinemia pode estimular a produção de androgênios pelos ovários e também reduzir, no fígado, a produção de uma proteína chamada SHBG, que participa do transporte dos hormônios sexuais.

Com menos SHBG disponível, pode aumentar a fração de testosterona livre na circulação.

Isso ajuda a explicar por que algumas mulheres com SOP apresentam:

  • ciclos menstruais irregulares;

  • ovulação menos frequente;

  • acne;

  • aumento de pelos;

  • queda de cabelo de padrão androgenético.

Mas é importante não transformar essa explicação em uma regra.

Nem toda mulher com SOP apresenta hiperandrogenismo. Nem toda mulher com SOP têm resistência à insulina clinicamente relevante. E os sintomas podem variar bastante.

A síndrome é justamente isso: uma combinação variável de manifestações.

Resistência à insulina causa ganho de peso?

Essa relação também não é tão simples.

A resistência à insulina e o excesso de peso podem influenciar-se mutuamente, mas não existe uma sequência universal em que uma mulher desenvolve resistência à insulina simplesmente porque engordou.

Na SOP, a própria síndrome pode estar associada a alterações metabólicas que aumentam a facilidade de ganho de peso em algumas mulheres. Ao mesmo tempo, o excesso de tecido adiposo pode piorar a resistência à insulina.

É uma relação bidirecional.

Além disso, fatores como sono, atividade física, alimentação, genética, medicamentos, saúde mental e ambiente alimentar também participam do controle do peso.

Por isso, dizer para uma mulher com SOP simplesmente “emagreça para melhorar sua resistência à insulina” é insuficiente.

A boa notícia é que melhorias metabólicas podem acontecer mesmo sem uma grande perda de peso.

As diretrizes internacionais destacam que hábitos alimentares saudáveis e atividade física podem trazer benefícios metabólicos e de qualidade de vida mesmo quando não ocorre emagrecimento.

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Quais são os sintomas de resistência à insulina?

Esse é um ponto que costuma gerar muita confusão.

Resistência à insulina não tem um conjunto de sintomas específico que permita fazer o diagnóstico apenas pela observação do corpo.

Algumas mulheres podem apresentar maior fome, dificuldade para controlar o peso ou sonolência após as refeições, mas esses sinais são inespecíficos.

Também é possível ter resistência à insulina sem perceber absolutamente nada.

Por isso, não é adequado diagnosticar resistência à insulina porque você sente muita fome ou porque tem gordura abdominal.

Na SOP, a avaliação metabólica é importante justamente porque alterações da glicose podem permanecer silenciosas.

As diretrizes internacionais recomendam avaliação regular do metabolismo da glicose em mulheres com SOP, considerando o risco aumentado de alterações glicêmicas e diabetes tipo 2.

Quais exames avaliam resistência à insulina na SOP?

Aqui existe uma informação que pode surpreender.

Muitas mulheres chegam ao consultório com um exame de “insulina basal” ou HOMA-IR e acreditam que ele seja suficiente para dizer se têm ou não resistência à insulina.

A diretriz internacional de SOP não recomenda o uso rotineiro de dosagens de insulina disponíveis clinicamente para avaliar resistência à insulina, porque esses testes têm limitações importantes.

Para avaliar o metabolismo da glicose, o exame considerado mais preciso na SOP é o teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com 75 g, também conhecido como curva glicêmica.

Quando esse exame não pode ser realizado, glicemia de jejum e hemoglobina glicada podem ser consideradas, embora apresentem menor precisão para essa finalidade na SOP.

Isso não significa que HOMA-IR seja “um exame inútil”.

Ele pode aparecer em pesquisas científicas e ser utilizado por alguns profissionais em determinados contextos clínicos. O ponto é que não deve ser tratado como um marcador isolado e definitivo de resistência à insulina.

Também é importante não interpretar um resultado laboratorial sem considerar o contexto clínico.

SOP aumenta o risco de diabetes?

Sim.

Mulheres com SOP apresentam maior risco de alterações no metabolismo da glicose e diabetes tipo 2, independentemente do IMC, embora o excesso de peso possa aumentar ainda mais esse risco.

Por isso, a avaliação metabólica não deve acontecer apenas quando existe ganho de peso.

Ela faz parte do acompanhamento da própria síndrome.

Esse é um dos motivos pelos quais a SOP não deve ser tratada somente como uma questão de menstruação irregular, acne, pelos ou fertilidade.

Cuidar da saúde metabólica faz parte do tratamento.

Preciso cortar carboidratos se tenho SOP e resistência à insulina?

Não necessariamente.

E esse talvez seja um dos maiores mitos relacionados à SOP.

Carboidratos não são um grupo alimentar único. Frutas, feijão, lentilha, aveia, arroz, batata, pão, doces e bebidas açucaradas contêm carboidratos, mas têm composições nutricionais muito diferentes.

A questão não é simplesmente “carboidrato: sim ou não?”.

É muito mais interessante olhar para:

qual carboidrato, em qual quantidade, com que frequência e dentro de qual padrão alimentar?

Uma refeição composta apenas por um alimento rico em carboidrato refinado e com baixa quantidade de proteína e fibras pode produzir uma resposta glicêmica diferente daquela de uma refeição que combina carboidrato com proteína, fibras e gordura.

Isso não significa que toda refeição precise seguir uma fórmula rígida.

Significa que o padrão alimentar importa.

E as diretrizes atuais não recomendam uma única dieta específica para todas as mulheres com SOP. Estratégias alimentares devem ser individualizadas de acordo com preferências, necessidades, cultura, objetivos e contexto clínico.

Então, qual é a melhor dieta para SOP?

Não existe uma única “dieta da SOP” comprovadamente superior para todas as mulheres.

Estudos compararam diferentes estratégias, incluindo dietas com restrição energética, baixo índice glicêmico, low carb, DASH, mediterrânea e outras abordagens.

Uma revisão sistemática com meta-análise em rede de 19 ensaios clínicos encontrou diferenças entre estratégias para determinados desfechos metabólicos, mas isso não significa que exista uma dieta universalmente vencedora. A quantidade de participantes foi relativamente pequena e os estudos apresentaram diferentes protocolos e durações.

Uma revisão sistemática mais recente, publicada em 2026, reuniu 38 estudos sobre intervenções nutricionais na SOP e encontrou resultados favoráveis em diversos parâmetros, como peso, circunferência da cintura, sensibilidade à insulina e regularidade menstrual. Ao mesmo tempo, os resultados para alguns marcadores metabólicos e inflamatórios foram inconsistentes.

Na prática, isso reforça uma ideia simples:

a melhor alimentação para SOP é aquela que melhora a qualidade da dieta e os parâmetros metabólicos sem criar uma estratégia impossível de manter.

O que comer quando tenho resistência à insulina?

Em vez de procurar uma lista de alimentos “permitidos”, pense na estrutura da alimentação.

Uma rotina alimentar metabolicamente adequada pode incluir verduras, legumes, frutas, feijões e outras leguminosas, cereais integrais ou outros carboidratos de boa qualidade, castanhas e sementes, fontes adequadas de proteína e gorduras insaturadas.

Alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas podem ocupar menos espaço na rotina, especialmente quando seu consumo é frequente.

Isso não significa que você nunca possa comer sobremesa, pão ou massa.

Uma alimentação saudável não precisa ser perfeita para ser eficaz.

Também vale atenção à ingestão de fibras. Elas contribuem para a saúde intestinal, saciedade e resposta glicêmica, embora a quantidade ideal dependa da tolerância individual.

Para mulheres vegetarianas, por exemplo, leguminosas, tofu, tempeh, ovos e laticínios, quando consumidos, podem ajudar a compor adequadamente as refeições. A estratégia precisa considerar a alimentação que a mulher realmente escolheu seguir.

E o exercício? Ele ajuda na resistência à insulina?

Sim.

A atividade física aumenta a utilização de glicose pelos músculos e pode melhorar a sensibilidade à insulina.

E existe um ponto importante: o benefício metabólico do exercício não depende exclusivamente da perda de peso.

A diretriz internacional recomenda atividade física e intervenções de estilo de vida como parte central do cuidado da SOP para melhorar saúde metabólica, composição corporal, qualidade de vida e outros desfechos.

Isso pode envolver exercício aeróbico, treinamento de força ou uma combinação de modalidades.

Não é necessário começar com uma rotina extremamente intensa.

Consistência tende a ser mais importante do que transformar o exercício em uma punição.

E a metformina?

A metformina pode fazer parte do tratamento de algumas mulheres com SOP, especialmente quando existem alterações metabólicas.

As diretrizes internacionais recomendam que ela seja considerada em adultas com SOP e IMC ≥25 kg/m² para desfechos antropométricos e metabólicos, incluindo resistência à insulina, glicose e perfil lipídico. Em mulheres com IMC abaixo de 25 kg/m², também pode ser considerada, mas a evidência é mais limitada.

Isso não significa que toda mulher com SOP precise tomar metformina.

Também não significa que ela substitua alimentação, atividade física ou acompanhamento médico.

A decisão depende do quadro individual, dos objetivos do tratamento, dos exames, das contraindicações e da avaliação médica.

E existe um detalhe relevante: efeitos gastrointestinais, como náusea, desconforto abdominal e diarreia, são relativamente comuns e podem ser minimizados em alguns casos com introdução gradual e formulações de liberação prolongada.

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O que a ciência mostra sobre SOP e resistência à insulina?

A relação entre SOP e resistência à insulina é bem estabelecida, mas ainda existem muitas perguntas sem resposta.

Sabemos que a resistência à insulina é um importante componente fisiopatológico da SOP e que está associada a maior risco metabólico. Também sabemos que pode ocorrer em mulheres com diferentes características corporais.

Sabemos ainda que mulheres com SOP apresentam maior risco de alterações glicêmicas e que o acompanhamento metabólico deve fazer parte do cuidado a longo prazo. O TOTG com 75 g é considerado o teste mais preciso para avaliar o estado glicêmico na SOP.

Quanto à alimentação, a evidência mostra benefícios de diferentes padrões e intervenções, mas não sustenta uma dieta única que deva ser seguida por todas. Estudos recentes encontram efeitos positivos em parâmetros metabólicos, embora haja diferenças importantes entre protocolos e qualidade metodológica.

Também sabemos que estilo de vida saudável pode melhorar a saúde metabólica mesmo sem perda de peso. Esse ponto é especialmente importante para evitar o estigma relacionado ao peso no tratamento da SOP.

O que ainda não sabemos completamente é por que algumas mulheres desenvolvem alterações metabólicas mais importantes que outras e quais estratégias nutricionais são superiores para cada fenótipo da síndrome.

Por isso, personalização não é falta de evidência.

É justamente uma consequência da evidência disponível.

Aplicação prática: o que fazer se você tem SOP e resistência à insulina?

Se você recebeu esse diagnóstico, não precisa começar eliminando açúcar, pão, arroz, frutas e todos os carboidratos da sua alimentação.

Comece entendendo seu quadro.

Converse com o médico sobre a avaliação da glicemia e outros fatores de risco metabólico. Se houver indicação, o TOTG pode ser solicitado.

Na alimentação, procure construir refeições completas e regulares, com boas fontes de proteína, fibras, vegetais, frutas e carboidratos de qualidade. Reduza o espaço ocupado por bebidas açucaradas e ultraprocessados quando eles estiverem presentes em excesso.

Se você deseja emagrecer, a estratégia pode incluir um déficit energético individualizado. A diretriz internacional ressalta que, quando a perda de peso é um objetivo, o déficit deve considerar necessidades energéticas, peso corporal e nível de atividade física.

Se não deseja emagrecer, ainda assim vale cuidar da saúde metabólica.

E se você já tem uma alimentação adequada e continua apresentando alterações metabólicas, isso não significa que tenha “falhado”.

A SOP é uma condição endocrinometabólica complexa.

Ela não pode ser reduzida à força de vontade de uma mulher.

Concluindo

A relação entre SOP e resistência à insulina existe e é importante, mas não precisa ser assustadora.

A resistência à insulina é um dos componentes metabólicos da síndrome e pode contribuir para alterações hormonais, ovulatórias e metabólicas. Ela também está relacionada ao maior risco de alterações da glicose e diabetes tipo 2 observado em mulheres com SOP.

Ao mesmo tempo, nem toda mulher com SOP apresenta resistência à insulina da mesma maneira.

E você não precisa ter excesso de peso para cuidar da sua saúde metabólica.

A alimentação pode ajudar. A atividade física pode ajudar. O sono e outros aspectos do estilo de vida também fazem parte do cuidado. Em algumas situações, medicamentos como a metformina podem ser indicados.

O que não precisamos fazer é transformar a SOP em uma lista interminável de proibições.

Não existe um alimento isolado que determine sua saúde metabólica.

Existe o conjunto da sua alimentação, da sua rotina, dos seus exames, dos seus sintomas e das suas necessidades.

E esse conjunto merece ser olhado de forma individualizada.

Referências

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  4. Helvaci N, Yildiz BO. Polycystic ovary syndrome as a metabolic disease. Nature Reviews Endocrinology. 2025;21:230-244.

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  8. Yang J, et al. The impact of dietary interventions on polycystic ovary syndrome patients with a BMI ≥25 kg/m²: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Reproductive Medicine and Biology. 2024.

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